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Capítulo 1

Capítulo 01 - Lyariel

Lyariel se balançava na figueira; alguns raios de sol passavam entre as folhas que já perderam a cor verde vibrante, dando lugar a tons amarelados, quase castanho. O vento agitava as folhas, que iam se desprendendo da árvore. Ela, imersa em seus pensamentos, contemplava algumas folhas caindo lentamente, enquanto se balançava. Faz mais de seis meses que voltara de Turstk, onde conheceu o seu pretendente a casamento, o terceiro príncipe de Dorn. No solstício do verão ela estaria em Dorn, para se casar, com a promessa de Dorn voltar a lutar contra Ravenfall.

— Você não é mais criança para ficar aqui no balanço; está na hora de assumir seu papel como princesa de Auler. — Uma voz doce e ao mesmo tempo severa, de sua mãe.

— Deixe-me aqui mais um pouco.

— Eu sei que você está preocupada com essa guerra, com o cerco da cidade. E que aqui é seu refúgio. — Acariciando o seu rosto. — Mas olhe suas vestes, estão cheias de folhas e de fuligem. Você precisa ser forte; logo vai se casar.

— Desculpa, minha mãe. — Se levantando do balanço e sacudindo as vestes. — Mas será que não tem como fazer as pazes com Ravenfall? É necessário tanto derramamento de sangue?

— Só teremos paz quando acabarmos com Ravenfall. Eu somente terei paz quando vê-los bem longe das nossas terras. Com aquele maldito rei morto.

— Eu entendo a sua dor… mas faz mais de dois anos que meu irmão morreu em batalha. Temos que…

— Nem se passasse mil anos, eu jamais esqueceria. — Segurando firmemente o queixo de Lyariel. Um vento forte fez levantar uma densa nuvem de fuligem de fora da cidade, indo em direção à cidade. Os cabelos de ambas balançam com o vento. Lyariel olha com pesar para baixo. A mão da rainha aos poucos solta o queixo e sobe às bochechas, acariciando as suas orelhas. Mas a sua voz traz uma dureza.

— Por isso preciso que você seja forte; não é só uma questão de honra. Nosso povo depende de você. Vamos para dentro agora.

— Eu sei, minha mãe. Eu sei das minhas responsabilidades; Auler é minha terra, meu povo. Mas…

— Mas o quê? Minha filha — a interrompendo.

— Mas é dolorido demais. — Ela se afasta de sua mãe e se aproxima da árvore, onde vê alguns desenhos entalhados, feito por seu irmão; ela passa a mão sobre eles. — Ter que deixar Auler, deixar você, o meu pai.

— Eu sei. — Se aproximando dela e abraçando. — Eu vim de Dorn para aqui. Sei o que você sente. Mas vai ficar tudo bem.

Em seu quarto, Lyariel pega um caderno e começa a fazer algumas anotações e desenhos, organizando seus pensamentos. Três batidas ecoam no quarto.

— Está acordada? — Era a voz de seu pai. — Daria a honra da presença de estar com esse velho elfo?

— Claro, meu pai; a honra é minha.

Ele entra no quarto, se curva cumprimentando como se estivesse em um baile; ela responde se curvando também. Eles param por um instante e soltam uma gargalhada.

— Qual a honra que traz o senhor aqui?

— Nada demais, vim somente para te ver, ficar contigo, mais um pouco. — Sua voz cansada carregava melancolia. — Nem acredito que você cresceu; logo você estará longe daqui.

— Também vou sentir muita falta sua. E como foi chegar a essa situação? Quero entender, preciso saber o que aconteceu? Não sou mais criança.

— É verdade, você já não é criança, mas para mim você sempre será minha menina. Não queria trazer essas preocupações para você. — Segurando a mão dela, ele senta na cama e se encosta na cabeceira da cama.

— Tudo aconteceu há muito tempo; sua mãe estava grávida de você quando ficamos sabendo da notícia de que Guimel, que era um sobrinho de segundo grau meu, conheceu uma bela humana, Jane, e eles se apaixonaram. — Ele resolve tirar as botas e se ajeitar na cama, então continua. — Ele trouxe ela para Auler e anunciou que iriam se casar.

— Mas eu não entendo, como isso levou à guerra. Porque ela foi morta?

— É complicado, mas basicamente sua mãe e muitos nobres se opuseram violentamente, falando que era abominável. Que levou a esse crime bárbaro.

— O rei humano foi insensato, criar uma guerra, onde tantas pessoas inocentes morreram.

— Ele foi tomado por ódio e vingança ao descobrir do assassinato e que a gente tentou ocultar.

— Como assim ocultar? — Ela olha com espanto para seu pai, que sempre via como um exemplo de justiça; ele não consegue olhar para sua filha.

— No tribunal eu fui fraco, sua mãe e nobres foram fortes, devendo que o assassino, que era da família de Guimel, não deveria ser punido. Ao chegar aos ouvidos do rei, por Guimel, isso o tornou cego; enfurecido, buscando vingança.

— Guimel não deveria ter feito isso. — Ela coloca a mão no ombro dele, tentando de alguma maneira consolar aquele que sentia o peso de suas decisões. — Ele foi egoísta. Não pensou nas consequências que trouxe para todo o seu povo.

— A paixão, o amor, pode levar a um caminho de raiva e ódio. — Acariciando a cabeça dela. — Assim como a falta de justiça pode levar à vingança. Agora estamos nessa situação.

— Vai ficar tudo bem. Eu irei me casar em breve e Dorn vai nos ajudar.

— Sim. — Olhando para ela, ele coloca sua mão sobre o seu ombro. — Sinto muito por jogar essa responsabilidade sobre você.

— Tudo bem, meu pai. — Abraçando-o. — Sentirei sua falta.

— Também irei. Mas o que você achou do príncipe Finrod?

— Ele é arrogante e de nariz empinado; lembra muito minha mãe.

— Isso era esperado de pessoas de Dorn. — Soltando uma gargalhada. — Mas ele, espero que seja uma pessoa honrada e boa.

— Pode ficar tranquilo; ele parece ser uma boa pessoa. — Ela se vira de lado e se cobre, como se quisesse se esconder. — Estou com sono; boa noite.

— Espero que sim. Desejo tempos de paz.

Ele fica ali sentado na cama, cuidando e a observando, esperando ela pegar no sono. Ele estava cansado, mas estava difícil pegar no sono. Agitado, ele se levanta; observa pela janela o pátio do castelo. Os jardins com lírios e lótus. A grande figueira branca no centro do pátio. E uma fina chuva caía.

Ele volta a olhar sua filha, que dorme tranquilamente. Latidos de cães são ouvidos como barulho lá fora. Seria mais uma ação de Ravenfall, fazendo barulho em uma guerra psicológica? Pensa Theron.

Ele então volta a olhar para sua filha. E os latidos não param; quando pensa em deixar o quarto, ouve o sino ecoando pela cidade, acordando Lyariel, que salta assustada da cama. Apreensiva ela fala.

— O que está acontecendo?

— Fique tranquila, vou ver. — Ele sai com passos acelerados pelo corredor do castelo. Batidas apreensivas são ouvidas em seu quarto. Ele abre a porta e vê um jovem capitão.

— O que está acontecendo? — Indaga Theron.

— Meu rei, o castelo está sendo invadido. Um pequeno grupo conseguiu entrar e abrir o portão principal.

— Como isso foi acontecer? Vou preparar a defesa. Você acorde minha filha e minha esposa.

— O que está acontecendo? — Ainda com sono, Lyariel vê seu pai conversando com soldados no corredor.

— Acorde sua mãe e vão para a sala do trono e se tranquem lá. Só por precaução. — Theron parte com um grupo de guerreiros. Enquanto Lyariel olha com apreensão, vendo seu pai andar rapidamente, desaparecendo da vista dela.

— Não precisa se preocupar, princesa Lyariel. Seu pai é um excelente guerreiro. E irei lhe proteger. — Brande o jovem capitão Aerendir, batendo no peito contra sua armadura prateada, brilhante como seus cabelos platinados. Acompanhado de meia dúzia de soldados.

— O que está a acontecendo? Que barulho é esse?

— Perdão, rainha Elisha, mas a cidade está sendo invadida. O rei Theron foi para a frente e pediu para levar vocês até a sala do trono. Precisamos ir.

— Espere; não posso ir assim. — É chamado quatro criadas para ajudar a se vestirem. Lyariel se veste rapidamente e parte para o quarto de sua mãe, que insiste em arrumar seus cabelos.

— Vamos, minha mãe; não podemos ficar aqui.

— Que é isso, Lyariel. Você vai deixar essas sardas aparecerem. — Levando Lyariel a tampar o rosto e sua mãe entregando pó de arroz. — Vamos; passe isso.

— Está bem, está bem. Mas vamos logo.

A rainha borrifa perfume sobre ela e sobre Lyariel.

— Minha rainha, precisamos ir logo. — Fala apreensivo o jovem capitão, ao ouvir barulhos no portão do castelo.

— Vamos logo. — Se levantando e ordenando os soldados a acompanharem-nos até a sala do trono.

Eles andam em um corredor longo e chegam na frente da sala do trono.

A grande sala era ornamentada com diversas estátuas de mármore; algumas mesas e móveis ficavam próximos às paredes e pilastras. No centro era um espaço vazio, que costumava receber festas com muita dança. Ao fundo estava o trono do rei e da rainha. No centro, esculpida na parede de mármore, uma árvore, que era o símbolo do reino de Auler. A rainha Elisha e a princesa Lyariel, ao chegar na sala do trono, encontram ali alguns criados e alguns nobres que, ficando sabendo da invasão, correram para o palácio. Ela começa cumprimentando os nobres que estavam nervosos. Ela, entretanto, aparentava que nada estava acontecendo.

— Meus súditos, fiquem tranquilos. Está tudo bem. — Ela ordena que seja servido vinho aos nobres. Lyariel pega uma taça. Sua mão treme; ela leva o vinho aos seus lábios, sente o cheiro forte do vinho. Toma um longo gole, sentindo o gosto amargo. Ela vira o rosto e abandona a taça de vinho.

O capitão corre organizar a barricada, arrastando a mesa que range sobre o piso. A rainha aparentava calma. Mas o medo no rosto do capitão deixava todos apreensivos. Lyariel está tremendo ao lado de sua mãe, quase chorando, que belisca a sua mão e sussurra a sua filha: — Mantenha a compostura.

Apesar da pose da rainha, sua expressão de tranquilidade aos poucos se desfazendo ao ouvir diversos passos indo em direção à sala do trono. O primeiro golpe pesado na porta faz a porta tremer e todos estremecerem de pavor. Quanto tempo aquela porta aguentaria?

Pedras são arremessadas, estilhaçando belos vitrais. O vento entra na sala trazendo consigo fumaça.

— Não se distraiam com as janelas. Elas são altas; eles estão fazendo isso para nos distrair. — Grita o capitão, ao ver soldados deixando a porta.

Mais alguns pesados golpes fazem as dobradiças cederem. Mais um golpe; a tranca se rompe. O capitão recua e alguns soldados ainda tentam manter a barricada.

Enquanto as pessoas tentam encontrar um lugar para se esconder, quer seja uma pilastra ou uma mesa.

A força esmagadora e pesada de Ravenfall rompe totalmente a barricada. O capitão, sentindo suas forças irem embora, solta a espada de sua mão.

Gritos de pânico e gritos de vitória ecoam na sala.

— Nos rendemos. — Exclama apavorado o capitão.

Os soldados abrem um caminho, donde sai do meio dele um homem de idade já avançada; ele desfilha naquele saguão. Olha para um lado e para outro e vê com desdem o olhar de pavor de serviçais e nobres.

— Nos rendemos. — Repete o jovem capitão.

Ao se aproximar do jovem capitão, o homem saca sua adaga e desfere um golpe na jugular. — Calado.

O sangue jorra pelo saguão. Ele tenta tampar usando um lenço branco, com um brasão. Mas o fino linho não conseguia estacar. Caído no chão ele contempla o teto ornamentado. Com belos desenhos de elfas e elfos. Sua visão aos poucos vai escurecendo. Ele tenta procurar ajuda. Seu olhar clama por ajuda. Ele em seus últimos suspiros volta seu olhar para o trono. Vendo a rainha Elisha que mantém a postura, e da princesa Lyariel, que cai aos prantos ao ver aquela jovem vida se apagando perante seus olhos. Ela dá um pequeno passo. Sendo segurada pela mão de sua mãe. Ela se vira para ela e observa o salão, onde vê muitos elfos, somente desviando os olhos, algumas crianças e jovens choram. Sendo o choro silenciado pelos próprios pais. Caminhando pelo saguão ele balança sua adaga ensanguentada.

— Até que enfim chegou o dia que eu estava esperando há 25 anos e 8 meses.